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Daniel de Grisolia 2: A irreverência no exercício do poder
04/05/2019

 

Fernando Silva

Daniel de Grisolia iniciou o seu segundo mandato com bastante tranquilidade. Dos 15 vereadores eleitos, 12 eram situacionistas. DG mudou muito pouco em relação ao início de sua carreira política. Dessa vez, porém, levou para o poder um problema que o acompanharia pelo resto da vida: o alcoolismo. Estava muito mais experiente. Já havia completado 42 anos de idade.

Ele nunca mudou o comportamento pessoal enquanto dirigiu os destinos de Itabira. Era muito autêntico em suas atitudes. Nos Carnavais, por exemplo, desfilava pelas ruas da cidade fantasiado de zebra ou baiana. Também conservava um costume muito curioso. Nos dias de folias, amarrava vários penicos velhos em uma corda. Com essa estranha parafernália, subia e descia a rua Santana várias vezes. O bizarro desfile provocava uma barulheira infernal.

A figura do prefeito chamava a atenção. O homem era alto, corpulento, com a barriga ligeiramente saliente. Andava impecavelmente vestido. O “Trim” (que não empastava) deixava os cabelos nos trinques. Grisolia gostava de beber em casa, em sofisticados restaurantes, na zona boêmia ou nos copos- sujos da periferia. Não fazia e menor diferença. Esse exotismo aumentava ainda mais a sua popularidade. A maioria do povo tinha sincera admiração por esse político pouco convencional.

Em setembro de 1970, o mandatário trouxe uma ala inteira da Portela para desfilar em Itabira. Pouco antes da exibição da escola de samba, ele percorreu as principais ruas em cima do capô de um carro. Equilibrava-se com dificuldade e agitava uma enorme bandeira do Brasil. Luiza Grisolia- a esposa de DG (já falecida)- guardava uma recordação muito triste desse episódio. Em certo ponto da rua Água Santa, um sujeito se aproximou do automóvel. Resoluto, gritou para o motorista: “dá uma brecada que esse filho da puta cai, bate a cabeça no chão e morre de uma vez”. “Foi uma cena muito estranha, pois Daniel era muito estimado”, lamentava dona Luiza.

A administração do município não ia bem. Em determinadas ocasiões, o prefeito bebia demais e ficava quase duas semanas sem aparecer na prefeitura. Nesses períodos de intensas ressacas, os assessores tinham uma resposta na ponta da língua, quando alguém perguntava pelo chefe do Executivo. Eles invariavelmente respondiam: “Daniel está viajando”.

Apesar de tudo, Grisolia foi um grande tocador de obras. Passando por cima do Legislativo e ignorando preceitos legais, deixou importantes realizações para a posteridade. São de sua lavra: a estação rodoviária, o Mercado Municipal, o viaduto do Alto Pereira, o Cemitério da Paz e as duas pontes, que ligam Ipoema a Senhora do Carmo. Abriu ainda uma usina de asfalto e construiu moderna avenida na região central da cidade, a atual avenida Daniel Jardim de Grisolia. Uma justa homenagem. O polivalente prefeito era também desenhista. Ele mesmo fez os projetos da rodoviária e Mercado Municipal.

O ex-presidente da Câmara e adversário político- Benedito Moreira de Souza- fez uma espécie de “mea- culpa” alguns anos mais tarde: “eu não entendo como Daniel conseguiu fazer tantas coisas com tão pouco dinheiro”, reconheceu o popular Bené Moreira. Em Santa Maria de Itabira, o padre Luiz Moreira não se cansava de ironizar: “o prefeito de Santa Maria deveria beber igual ao (prefeito) de Itabira. Talvez, assim (bêbado), ele consiga fazer alguma coisa de útil aqui na nossa cidade”, alfinetava o sacerdote.

A convivência pacífica com o Legislativo acabou já no segundo ano de mandato. Os vereadores descobriram uma série de irregularidades na Prefeitura e rejeitaram as contas do exercício anterior. Grisolia, porém, não tomou conhecimento dessa divergência. Continuou seu trabalho sem dar satisfações a ninguém. Para complicar ainda mais, o governante exonerou o secretário da Fazenda: Francisco de Assis Ferreira (popular Chico Rato) era uma pessoa íntegra e de reconhecida competência. Essa demissão repercutiu muito mal no seio da sociedade itabirana.

A Prefeitura e a Câmara funcionavam num mesmo local. Os dois poderes coexistiam no casarão do, hoje, Museu de Itabira, na Praça do Centenário. O relacionamento entre o prefeito e os vereadores deteriorou-se tanto que o Legislativo se transferiu para um prédio da rua Tiradentes, em frente ao Banco do Brasil.

Num dado momento, Grisolia passou a contar com o apoio de apenas dois legisladores: José Jesus de Souza e João Eli de Moura. Os demais faziam acirrada oposição. E quase cassaram o mandato de DG. O processo só não avançou graças a “Zé Jesus”. Muito hábil, ele sempre obstruía as manobras da oposição.

Mas o quadro não mudava. A quantidade de nuvens negras só aumentava no céu de Itabira. A ditadura militar já ameaçava intervir na administração da cidade. Grisolia corria sério risco de parar na cadeia. No auge da confusão, Virgílio Gazire (o vice-prefeito) também rompeu com o titular. O chefe do Executivo estava isolado e o desfecho da crise caminhava rapidamente para uma imprevisível solução final. E tudo acabaria da pior maneira possível.

PS1: Na imagem, DG desfila pelas ruas da cidade sobre o capô de um automóvel. De repente, um homem se desgarra da multidão e grita para o motorista: “Dá uma brecada que esse filho da puta cai, bate a cabeça no chão e morre de uma vez”. Foto cedida pelo advogado e ex-vereador Abílio Couto.

PS2: Sábado que vem, o último capítulo: A MORTE DE DANIEL JARDIM DE GRISOLIA: O DIA MAIS TRÁGICO DA HISTÓRIA DE ITABIRA








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